A Céu Aberto

Pic-Nic

Estava um dia de calor, daqueles de afoguear

E lá fui com o meu amor, pra praia, refrescar

Parei naquele mar, da linha que ficava perto

Pra, enfim me espraiar, àquele sol descoberto!

 

Estava mesmo a destilar, n’aconchego do calor

Quando ouço um trotar, em risadinhas de amor

Vinham dois namorados, com farnel a contendo

Sentando-se, prensados, ficámos face ao horrendo:

 

Eram salsichas fritas com ovos, regadas com o tintol

Que aspiravam, gulosos, como quem limpa um urinol

E as bananas a quilo, qu’emborcavam os veraneantes?

Tudo feito num tranquilo ruminar, de largas consoantes!

 

Ah, mas que marabilha! Que belo leitãozinho da Bairrada!

Aqueceste as erbilhas? Não trouxeste a bitela marinada?

E neste enorme caldeirão, esturricando em duas frentes

Ficámos em combustão, e aos seus olhos, indiferentes!

 

Comiam desalmadamente, e nós estupefactos de torpor

Esperávamos, ansiosamente, o fim do cozinhado a vapor

Quando eis que depois da copázia, o cachalote se virou

Amigo, desculpe-me a azia! E num repente lá arrotou!

 

E num dia abrasador, num passeio pra me refrescar

Dei de caras c’o Adamastor, numa versão d’inflamar

Estava apaixonado e comia, o mundo c’o seu amor

E espraiando-se, luzia, neste pic-nic, o nosso clamor!

 

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This entry was published on 22 de Novembro de 2012 at 19:58. It’s filed under Poesia and tagged , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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